A EXPRESSÃO QUE ATRAVESSOU GERAÇÕES
“Pouca gente conhece a origem.” Usamos a expressão “ficar na pindaíba” quase automaticamente quando o dinheiro aperta, quando o mês parece longo demais ou quando a vida exige mais do que o bolso consegue oferecer.
Ela soa engraçada, familiar, brasileira. Mas o que quase ninguém sabe é que essa frase tão comum nasceu de uma fruta real, de um contexto social duro e de uma relação direta com alimentação, escassez e sobrevivência.A pindaíba é uma fruta nativa do Brasil, pertencente à família das anonáceas, a mesma do araticum e da graviola. Cresce em regiões do Cerrado e da Mata Atlântica e, durante muito tempo, foi associada a áreas pobres, rurais e afastadas dos grandes centros.
Seu fruto é pequeno, de polpa escassa e pouco valorizado comercialmente. Não era algo que se comia por prazer, mas por necessidade.
Historicamente, em períodos de crise, seca ou extrema pobreza, muitas famílias recorriam ao que a terra oferecia espontaneamente. Quando não havia arroz, feijão, carne ou farinha, sobrava a pindaíba.
Comer pindaíba não era escolha — era sinal de que não havia outra opção. Daí nasceu a associação direta entre a fruta e a falta de recursos. “Estar na pindaíba” significava, literalmente, estar em um ponto em que só restava essa alternativa.
Com o tempo, a expressão saiu do campo, entrou nas cidades e passou a representar qualquer situação de aperto financeiro. A fruta desapareceu do cotidiano urbano, mas a frase ficou. Curiosamente, a maioria das pessoas repete a expressão sem jamais ter visto — ou provado — uma pindaíba de verdade.
Do ponto de vista nutricional, a pindaíba não é tóxica nem inútil. Como outras frutas nativas brasileiras, possui fibras, compostos antioxidantes e carboidratos naturais. O problema nunca foi nutricional. O problema sempre foi simbólico: ela representava a ausência de escolha, a falta de dignidade alimentar, a sobrevivência no limite.
Esse detalhe revela algo poderoso sobre a língua portuguesa no Brasil: nossas expressões carregam memória social. Elas são registros vivos de desigualdade, adaptação, criatividade e resistência. Quando dizemos que alguém está “na pindaíba”, estamos ecoando um passado em que comida, dinheiro e destino estavam profundamente ligados.
Hoje, ironicamente, frutas antes desprezadas vêm sendo redescobertas por chefs, pesquisadores e nutricionistas. O que antes simbolizava escassez agora desperta curiosidade científica e cultural.
A língua, assim como a alimentação, muda de significado com o tempo — mas não perde a história. Conhecer a origem dessas expressões não é apenas curiosidade. É entender de onde viemos, como sobrevivemos e por que certas palavras ainda fazem tanto sentido emocional.
Linguagem também é memória. Linguagem também é cultura alimentar. Da próxima vez que ouvir ou usar essa expressão, lembre-se: ela não nasceu por acaso.
Compartilhe este conteúdo para outros também entender a linguagem é entender a si mesmos.
Fonte: Matéria informativa publicada no MSN Brasil

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