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| Imagem/STF |
E aconteceu, no plenário do STF, uma palavra chamou atenção. Não veio de um jornalista, de um cidadão indignado ou de um adversário político. Veio de dentro da própria Corte.
A ministra Cármen Lúcia disse estar triste e envergonhada.
Pare por um instante e pense nisso.
Não é pouca coisa.
O Supremo é uma das instituições mais importantes da República. É ali que se espera encontrar equilíbrio, serenidade, segurança jurídica e, sobretudo, a sensação de que as instituições estão funcionando acima das disputas e dos interesses momentâneos.
Por isso, quando uma ministra olha para aquilo que está acontecendo e admite sentir vergonha, a pergunta inevitavelmente ultrapassa os limites do plenário:
O que está acontecendo com o nosso país para que uma ministra do Supremo se sinta assim?
Cármen Lúcia não falou apenas de si. Sua manifestação expôs uma preocupação maior: a imagem de uma instituição que deveria transmitir tranquilidade, mas que, aos olhos de sua própria integrante, está contribuindo para produzir inquietação.
E talvez seja justamente aí que esteja o ponto mais delicado. Uma democracia não vive apenas de leis, votos e decisões judiciais. Ela também vive de confiança e isso o STF vem perdendo ao longo dos tempos.
Quando o cidadão começa a olhar para as instituições e não consegue compreender o que está acontecendo, quando decisões parecem se sobrepor, quando ministros divergem publicamente e quando o Supremo passa a ocupar diariamente o centro das discussões políticas, alguma coisa precisa ser refletida.
Não porque o Supremo não possa errar.
Instituições são formadas por seres humanos. E seres humanos podem errar.
O problema começa quando o cidadão deixa de acreditar que existe espaço para reconhecer o erro, corrigir rumos e restabelecer a serenidade.
Talvez por isso a palavra “envergonhada” tenha sido tão forte. Porque ela não veio de fora.
Veio de dentro.
E quando alguém que está dentro da instituição reconhece que alguma coisa não está bem, talvez seja o momento de todos nós diminuirmos o volume das paixões e aumentarmos o volume da reflexão.
O Brasil não precisa de um Supremo enfraquecido. Mas também não precisa de um Supremo permanentemente colocado no centro de todas as crises políticas do país.
Precisa de um Supremo respeitado.
E respeito não nasce do medo. Nasce da confiança.
Confiança se constrói com decisões fundamentadas, coerência, transparência, limites institucionais e, principalmente, com a percepção de que ninguém está acima da Constituição — nem cidadãos, nem parlamentares, nem governantes, nem ministros.
A fala de Cármen Lúcia deveria ser ouvida com atenção.
Não para atacar o Supremo.
Não para defender o Supremo.
Mas para fazer uma pergunta que interessa a todos nós:
Como chegamos ao ponto em que uma ministra da mais alta Corte do país precisou dizer, dentro do próprio Tribunal: “eu estou envergonhada”?
Talvez essa pergunta seja mais importante do que qualquer disputa entre grupos políticos.
Porque, no fim das contas, o Supremo pode continuar funcionando.
O governo pode continuar governando.
O Congresso pode continuar legislando.
Mas uma República sem confiança começa a funcionar como uma casa onde as paredes ainda estão de pé, porém os moradores já não sabem se podem confiar uns nos outros.
E quando a confiança começa a desaparecer, reconstruí-la é muito mais difícil do que perdê-la.
Por isso, a palavra de ontem não deveria ser tratada apenas como mais uma declaração política.
“Envergonhada.”
É uma palavra dura.
Mas, às vezes, palavras duras são justamente aquelas que nos obrigam a parar, olhar para dentro e perguntar:
Que país estamos construindo?
E, principalmente:
Que país queremos deixar para as próximas gerações?

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