| Foto: autoral |
O que chama bastante atenção é a identidade visual da loja: verde,
cactos e a expressão “Casa do Norte”, isso nos remete imediatamente à cultura e
à culinária nordestina.
Logo na entrada já aparecem produtos tradicionais e utensílios típicos associados à região Nordeste.
Existe uma história muito interessante por trás dessas lojas: “Casa do Norte” não é apenas um comércio de alimentos nordestinos: ela nasceu
também como uma espécie de ponto de encontro entre quem deixou o Nordeste e a
cultura que ficou para trás.
Origem: o Nordeste que viajou para o Sudeste e as
"Casas do Norte", como conhecemos hoje, estão ligadas ao grande
movimento migratório de nordestinos para o Sudeste, principalmente para São
Paulo e Rio de Janeiro, ao longo do século XX.
A migração ganhou força a partir da década de 1930 e foi
especialmente mais intensa nas décadas de 1950/1960 e não somente do Nordeste, intensificando nos anos subsequente, o auge foi nos anos setenta com o maior
êxodo de todos os estados do Brasil.
Muitos nordestinos deixavam suas cidades em busca de
trabalho, impulsionados pelas dificuldades econômicas, pelas secas e pela
crescente industrialização de São Paulo.
São Paulo precisava de trabalhadores para sua agricultura,
construção civil, indústria e serviços. Ao mesmo tempo, milhares de famílias
nordestinas procuravam uma oportunidade de reconstruir a vida.
E essas pessoas não levaram apenas sua força de trabalho.
Levaram seus costumes, sua comida, sua música, sua religiosidade e sua saudade.
E aí aparece a Casa do Norte. Com o crescimento das
comunidades nordestinas nas cidades do Sudeste, surgiu naturalmente uma
necessidade.
Aonde encontrar aquilo que lembrava a terra de origem? Foi
nesse contexto e ambiente que se consolidaram estabelecimentos especializados
em produtos nordestinos.
"Uma pesquisa da Unifesp observa que o aparecimento das
Casas do Norte como estabelecimentos comerciais consolidados coincide com a
migração nordestina e com a acomodação desses trabalhadores na área urbana de
São Paulo".
E o nome é curioso. "Para quem estava em São Paulo,
“Norte” era uma maneira popular de se referir à região de onde vinham muitos
daqueles migrantes, embora hoje saibamos que boa parte deles era
especificamente nordestina".
Assim, a expressão Casa do Norte acabou se tornando uma
espécie de marca cultural.
Mais do que vender produtos. Imagine um nordestino chegando
a São Paulo nos anos 1950 ou 1960.
Uma cidade enorme, industrial, acelerada, muito diferente da
pequena cidade ou comunidade rural que havia deixado.
Então ele entra numa loja e encontra farinha de mandioca;
carne-seca; rapadura; feijão de diferentes variedades; temperos; milho e
derivados; doces; bebidas e ingredientes tradicionais; utensílios associados à
culinária nordestina.
Não era simplesmente uma compra. Era uma lembrança.
"Pesquisa acadêmica sobre essas lojas destaca
justamente essa dimensão material e afetiva"
As Casas do Norte atendiam necessidades de consumo, mas
também necessidades de identidade e pertencimento cultural.
O processo aconteceu principalmente nos bairros onde havia
grande concentração de trabalhadores nordestinos.
O bairro do Brás, por exemplo, tornou-se um importante
espaço de chegada e trabalho de diferentes grupos de migrantes.
A presença nordestina cresceu principalmente a partir das décadas de 1940 em diante.
Com o passar do tempo, o fenômeno deixou de ser
exclusivamente paulistano.
As comunidades nordestinas se espalharam por diversas
cidades do estado de São Paulo e também por Minas Gerais, Rio de Janeiro e
Espírito Santo.
E o comércio acompanhou esse movimento.
A lógica era simples: onde havia uma comunidade nordestina,
havia consumidores para os produtos nordestinos.
E, muitas vezes, a própria loja se transformava em ponto de
encontro da comunidade.
A Casa do Norte também virou uma “ponte” Há algo bonito
nessa história. O migrante precisava se adaptar ao lugar novo, mas não queria
necessariamente abandonar suas raízes.
A Casa do Norte acabou funcionando como uma ponte entre dois
mundos. A vida que o nordestino construiu no Sudeste e a memória da terra que
deixou para trás.
Por isso, essas lojas passaram a ter uma aparência muito
característica. Placas coloridas, referências ao sertão, cactos, imagens de
vaqueiros, bandeiras, produtos pendurados e uma grande variedade de
mercadorias.
A estética acabou se tornando tão reconhecível que
pesquisadores observam que é possível identificar uma Casa do Norte mesmo no
meio de uma paisagem comercial muito movimentada.
A Casa do Norte da foto (autoral) não é apenas uma loja com
uma placa dizendo “Bahia – Produtos Norte/Nordeste – Atacado e Varejo”.
Ela representa uma história de migração, trabalho, saudade e
preservação cultural.
É como se aquela fachada dissesse:
“O Nordeste veio para cá, mas não deixou de ser Nordeste.”
E talvez seja justamente essa a razão de uma Casa do Norte despertar tanta memória em quem conhece a cultura nordestina.
O curioso é que, com o passar das gerações, o público também
mudou. Hoje, essas lojas não atendem somente nordestinos.
Jovens e famílias que nasceram no Sudeste, mas têm pais,
avós ou bisavós nordestinos, continuam procurando esses produtos — e muitos
outros consumidores simplesmente descobriram e passaram a apreciar essa
culinária.
Assim, aquilo que começou ligado à necessidade dos migrantes
transformou-se em patrimônio cultural e comercial das grandes cidades do
Sudeste.
Porém, há uma aparente contradição, mas ela é principalmente
histórica e linguística.
Hoje, quando dizemos “Norte”, pensamos naturalmente na
Região Norte do Brasil: Amazonas, Pará, Acre, Rondônia etc.
Já os produtos dessas lojas são, em sua maioria,
nordestinos.
Mas o nome “Casa do Norte” é anterior à consolidação da
divisão regional brasileira como conhecemos hoje.
De onde veio o “Norte”? No passado, especialmente no uso popular, “Norte” era utilizado para designar uma área muito mais ampla do Brasil, incluindo aquilo que posteriormente passou a ser chamado de Nordeste.
Segundo uma explicação histórica registrada pela Folha de São
Paulo, "antes da divisão regional
adotada pelo IBGE, era comum considerar como Norte aquilo que ficava acima do
Rio de Janeiro, enquanto a parte abaixo era chamada de Sul".
A expressão “Nordeste” ganhou sua forma regional mais
definida somente no final dos anos 1930 e início dos anos 1940.
E existe outro detalhe interessante: “Norte” e “Nordeste”
chegaram a ser usados como termos próximos ou até sinônimos durante determinado
período, inclusive por pessoas que haviam migrado daquela região.
Então a Casa do Norte não é necessariamente uma loja do Norte? Exatamente. Com o tempo, “Casa do Norte” virou praticamente um nome tradicional para estabelecimentos especializados em produtos e culinária nordestina, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Por isso encontramos casas que vendem: farinha e derivados
de mandioca; carne-seca e charque; rapadura; queijo coalho; feijão; fava;
castanha; temperos; azeite de dendê; doces e outros produtos típicos.
"Uma pesquisa da Unifesp inclusive registra
estabelecimentos chamados Casa do Norte cujos proprietários são de Bahia,
Ceará, Pernambuco, Paraíba e outros estados nordestinos".
E há um detalhe que combina perfeitamente com a fotografia:
O nome é casa do Norte. Os produtos, na maioria são nordestinos.”
O mais correto é dizer: “Casa do Norte” é uma denominação
histórica que permaneceu no Sudeste para designar, principalmente, os
estabelecimentos ligados aos produtos e à cultura nordestina.
O nome sobreviveu mesmo depois que o Brasil passou a adotar
uma divisão regional mais precisa.
Ou, de uma maneira mais simples: O mapa mudou, mas o nome
ficou e isso explica perfeitamente por que aquela placa da fotografia diz “Casa
do Norte”, mas logo abaixo anuncia “Bahia – Produtos Norte/Nordeste”.
E há uma frase que resume bem essa história:
"A Casa do Norte nasceu da necessidade, cresceu com a
saudade e permaneceu pela força da cultura".
Fonte de pesquisa: Folha de São Paulo, Unifesp, PUCSP
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