Eu não me envolvo em política. Quantas vezes já ouvimos essa frase? Porque ela é mais comum do que podemos imaginar.
Ela geralmente vem acompanhada de um certo ar de tranquilidade, como quem diz: “Isso não é problema meu. Não quero saber de briga, de partido, de político, de eleição… de nada”
Tudo bem. Ninguém é obrigado a virar militante, cabo eleitoral ou especialista em Brasília.
Mas existe um pequeno detalhe que muita gente esquece: você pode não se envolver com a política, mas a política se envolve com você. E muito!
Ela entra na sua casa sem pedir licença. Entra no supermercado, quando você percebe que o dinheiro compra cada vez menos.
A política entra no seu contracheque, quando chegam os impostos. Entra no hospital, quando você precisa de atendimento médico.
Entra na escola dos seus filhos. Entra na estrada por onde você viaja, muitas vezes em péssimas condições mesmo você dizendo que não se envolve. Porque para a estrada ser construída e conservada depende da política e dos políticos que você ajudou a eleger ou não.
Ela entra na segurança da sua cidade, do seu bairro e da sua rua. Entra na sua aposentadoria quando você as vezes reclama que o reajuste foi menos do que os aposentados precisam.
Ela entra na sua conta de luz, no combustível que você coloca no tanque do seu carro.
Você pode dizer: não tenho carro! Tudo bem, ela entra no transporte e até no preço daquele cafezinho que você toma enquanto diz: “Eu não gosto de política.”
Gosta ou não gosta, a política já sentou na mesa com você.
E talvez seja justamente aí que esteja o nosso maior problema.
Durante muito tempo, muita gente acreditou que política era coisa de político. Que bastava votar de quatro em quatro anos e depois voltar para a vida normal. Só que democracia não funciona como uma procuração em branco.
O cidadão entrega o voto, mas não deveria entregar também a sua capacidade de acompanhar, questionar, cobrar e fiscalizar.
Porque quando você diz “não quero saber de política”, alguém pode interpretar isso como: “faça o que quiser, desde que não me incomode.”
E o poder, quando não encontra vigilância, costuma ficar bastante confortável.
Não precisamos concordar uns com os outros. Aliás, democracia pressupõe divergência.
Mas precisamos recuperar uma coisa que parece estar desaparecendo: o interesse pelo que acontece com o país.
Não é preciso vestir a camisa de partido algum.
Não é preciso idolatrar político.
Não é preciso transformar qualquer conversa em uma guerra.
É preciso apenas não entregar a terceiros o direito de decidir tudo sem que você sequer saiba o que está sendo decidido.
Porque política não é somente aquilo que acontece em Brasília ou mesmo na Câmara Municipal do seu município.
Política é aquilo que acontece com a sua vida. E da próxima vez que alguém disser:
— “Eu não me envolvo em política.”
Talvez seja interessante responder, com toda tranquilidade se tiver oportunidade o seguinte:
— “Tudo bem. Mas você já percebeu que a política se envolve com você todos os dias?”
E talvez essa seja uma das conversas mais importantes que precisamos começar a ter.
Encerro com uma frase do filósofo marxista Antonio Gramsci.
"Tudo é político, inclusive seu silêncio conivente e fantasiado de neutralidade"

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