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Essa não é.
Em Goiás, alguns bois decidiram que já era hora de deixar o pasto e conhecer de perto uma instituição que, teoricamente, representa a autoridade e essa é a Polícia Militar do Estado.
E não foram para fazer uma visita de cortesia.
Foram para o confronto.
Avançaram contra as viaturas, enfrentaram a movimentação dos policiais e chegaram até a estrutura da corporação na tentativa de invasão do quartel.
Foi então que surgiu uma pergunta inevitável:
O que acontece quando alguém — ou algum boi — perde o medo da autoridade?
Calma. Não estou chamando ninguém de boi.
Estou falando dos bois.
Mas é difícil olhar para aquela cena sem enxergar uma metáfora do Brasil.
Durante muito tempo, fomos ensinados que bastava mostrar a farda, a autoridade, o cargo ou o poder para que todos obedecessem.
Os bois, aparentemente, não receberam esse comunicado.
Eles olharam para as viaturas e disseram, em sua linguagem bovina:
“Daqui vocês não passam.”
E um (a) avançou e subiu no capô da viatura enquanto um outro colocou os policiais que os observam para correr para dentro do prédio e trancar o portão.
Mesmo assim ele não se intimidou e avançou contra o grande portão.
A cena é engraçada.
Mas também é simbólica.
Porque uma sociedade começa a enfrentar uma crise de autoridade quando as pessoas deixam de acreditar que autoridade significa responsabilidade, limite e respeito às regras.
E aqui está a ironia:
não basta ter autoridade. É preciso que a autoridade seja reconhecida como legítima.
Uma farda pode impor respeito.
Um cargo pode conferir poder.
Uma caneta pode produzir decisões.
Uma instituição pode possuir enormes prerrogativas.
Mas nenhuma dessas coisas, sozinha, produz confiança.
E confiança não se decreta.
Talvez os bois de Goiás não soubessem absolutamente nada sobre Constituição, democracia, Executivo, Legislativo ou Judiciário.
E, sinceramente, talvez tenham sido poupados de uma grande confusão.
Eles não conheciam ministros.
Não sabiam o que era uma liminar.
Não acompanhavam sessões.
Não tinham redes sociais.
Não discutiam pesquisas eleitorais.
Não tinham candidato.
Tinham apenas uma certeza:
não queriam sair dali.
E talvez seja justamente aí que a metáfora fique interessante.
O Brasil também parece viver, muitas vezes, diante de instituições que disputam espaço, autoridade e interpretação das regras.
Cada poder afirma seus limites.
Cada autoridade interpreta seu papel.
Cada lado acredita possuir razões suficientes para avançar.
E o cidadão?
Bem...
O cidadão assiste.
Às vezes, como quem observa as viaturas cercadas pelos bois.
Sem saber exatamente quem vai recuar.
A diferença é que, em Goiás, ninguém precisou explicar aos bois que existe separação de poderes.
Eles simplesmente avançaram.
E talvez essa seja a parte mais engraçada da história:
os bois não estavam fazendo política.
Mas acabaram produzindo uma das melhores metáforas políticas que Goiás poderia oferecer.
Porque, quando a autoridade perde sua capacidade de convencer, sobra a força.
E quando a força também não resolve, resta descobrir por que o outro está avançando.
No fim, talvez a grande lição daquele episódio seja muito simples:
uma sociedade não pode depender eternamente do medo para respeitar a autoridade.
Autoridade precisa de legitimidade.
Legitimidade precisa de confiança.
E confiança, ao contrário de uma ordem policial, não se impõe.
Constrói-se.
Quanto aos bois?
Depois que tudo passou, provavelmente voltaram para a vida deles.
Sem discursos.
Sem entrevistas.
Sem CPI.
Sem nota oficial.
Sem postar nas redes sociais porque eles não tem.
E talvez tenham deixado para nós uma última pergunta, dessas que ninguém gosta muito de responder:
quando até os bois resolvem enfrentar a autoridade, será que o problema está nos bois... ou na autoridade?
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